Este website deve ser visualizado em orientação vertical.

Por favor rode o ecrã.

DE:
PARA:
CARTAS QUERO RECEBER

Queridas Cartas

Rita Ferreira

Queridas Cartas

Rita Ferreira 1/11

Berlim, 28 de fevereiro de 2023

Queridas Joana e Mariana,

Estava a ensaiar um “Queridas Cartas”, mas o vosso gesto comigo foi tão pessoal, que só é justo trazer os vossos nomes para a frente. Os nomes de quem, como se costuma dizer, está atrás. Esta coisa de estar atrás, já agora, tem funcionado sempre muito bem comigo: camufla-me o nervosismo, ou mesmo o pânico, que sinto na exposição individual.

Mas a questão que me levantaram foi valente: Como é que a minha identidade se encontra com o meu trabalho? Então, entre estar atrás ou à frente, numa margem ou na outra, mais grossa ou até itálica, imagino-me a diluir estas coisas todas, para vos dar de volta o que me trouxe aqui.

2/11

Cheguei ao Design aos trambolhões. E cheguei ao Design porque vim parar ao Porto: o Porto era o que mais me interessava, era a cidade onde queria viver, era onde parava umas horas para transbordos entre comboio e camioneta, de Guimarães para as Caldas da Rainha, e vice-versa. Também foi a cidade da juventude do meu pai, mas isso é outra história. Antes disto tudo, o trabalho era uma ideia demasiado abstrata em mim, e era muito longínqua também. Queria fazer Cinema, nem sei o quê, e, terminada a licenciatura vim a correr atrás do Porto. Claro que não encontrei um trabalho, muito menos sabia como isso funcionava. Surpresa! Entre um e outro biscate a rasar no que eram as minhas ferramentas, vi-me a fazer cadernos em casa, a namorar livros na Mundo Fantasma ou cartazes na rua, e a meter os pés nas últimas vidas de cinemas como o Nun’Álvares. O que importava era o Porto: andar a pé pela cidade e descobrir um novo corta-mato qualquer.

3/11

Às vezes pensava (ou penso) que os sapatos já sabiam os caminhos de cor para casa. Este romance levou-me a ir fazer uma formação de “reconversão profissional”, que é como uma reconversão do signo astrológico nos anos da pré troika. Era um daqueles cursos do IEFP para desempregados: Design e Produção Gráfica. Precisava de ficar na cidade, não havia volta: o curso era pago e, em pouco tempo, lá estava a estagiar numa gráfica. Às tantas, poupo-me a elaborar em que consistia este estágio, e poupo-vos também, não enumerando todas as outras experiências “à experiência” que se seguiram.

4/11

Enquanto isto tudo acontecia, também via a cidade crescer. Os meus passos esticavam um pedaço, e havia mais movimento em novas direções: andei em vai-e-vem entre Matosinhos e Aveiro, para estudar Tipografia e Estudos Editoriais, respetivamente.
O Porto, a âncora, dava-me a cada mês um novo cartaz do João Faria, a cada semana um novo texto do Mário Moura, e a cada dia uma nova incerteza sobre o meu futuro. Era mais uma a recibos verdes, entre gabinetes de comunicação e editoras escolares, em trabalhos precários, em série e pouco estimulantes, numa sobrevivência que só era possível com ajuda da família. Mas estava tudo bem, porque afinal estava no Porto, onde agora galerias de ilustração abriam, mais à esquerda, e onde outras pinturas borravam as paredes, mais à direita. Havia um Rio FDP e a chuva caía mais pesada. O Porto virava lama: amigos eram convidados a sair das suas casas, o café da esquina agora tinha o melhor guardanapo do mundo, mulheres ciganas, com um bilhete numa mão e três filhos na outra, eram escorraçadas do comboio, a gente começava a ir junta para a rua berrar (pela primeira vez em quanto tempo?), o café entretanto até já estava fechado e as paredes acordavam de novo lavadinhas.

5/11

Não sei se estive a falar sobre Design, mas com o passar dos anos também fui percebendo menos o que era isso. Depois daquele pico inicial e muito convencido sobre o que era a disciplina, penso que me aborreci. Ou então foi zanga. E, ao mesmo tempo, também me zanguei com o parque temático em que se tinha transformado a minha rua na Sé. Pois foi: zanguei-me com identidades gráficas, com marcas e logotipos, com conceitos, e com o “aqui é que é de verdade”.

6/11

Lá carreguei as malas para o Bonfim, onde encontrei uma casa e algum espaço e tempo para voltar a brincar com cadernos. O jornal O Bomfim aconteceu desse movimento, e de uma vontade muito ingénua e querida de querer contar as histórias e mostrar as pessoas com quem agora me cruzava, de celebrar esse Porto onde eu queria viver e andar à deriva. Houve também uma triangulação meio que mágica para alavancar o jornal, porque encontrei pessoas como a Joana Estrela e a Sara Sá Jones, as duas com vontade de trabalhar numa publicação, com desenhos e com textos, para um formato que se começava a experimentar. E só foi possível continuar O Bomfim (como tem sido, e mesmo que aos soluços) com outras mãos e vozes, que se vão juntando na mesma carolice que o mandou para a frente. Quando devolvemos à comunidade, também a criamos, também esburacamos o espaço que há por reclamar.

7/11

Pela mesma altura em que se ensaiava o jornal, já andava também a contribuir com alguns trabalhos gráficos para o SOS Racismo, aproximações que se consolidaram com a Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista (MICAR). Meti ali as mãos para uns cartazes, e com o tempo percebi que fazia melhor o meu trabalho quanto mais envolvida com as pessoas estivesse. Não estava preparada, por isso era preciso ouvir mais, prestar mais atenção e desacelerar nas conclusões e nas propostas que como designer “sabia” dar. Precisava de uma panorâmica nesse trabalho e, como pessoa branca, precisava saber receber, desde o primeiro segundo, e não desaparecer depois da arte-final. Hoje em dia, participo na programação da Mostra, no desenho e na edição do Caderno, e tudo isto é consequência das trocas que este grupo de pessoas (me) permite. Mais uma vez, isto é sobre pessoas, e vem das pessoas — todas elas com empregos e com outros trabalhos, mães e pais, muitas delas — que continuam na sua casmurrice. E, mais uma vez, penso em comunidade, nesse “músculo bomba”, que dá e que traz de volta.

8/11

Nenhum destes trabalhos constitui uma forma de rendimento. E é-me conflituoso falar de trabalho por amor à camisola, quando ele não vai pagar as contas — porque há uma responsabilidade aqui, qualquer coisa que não quero promover como uma solução
para quem acaba agora uma licenciatura, por exemplo, e que se vê naquele nó de ter de trabalhar para poder sonhar com um trabalho. Por isto mesmo, também me custa falar da ideia de criar portefólio, ou de usar alguma destas plataformas para colecionar projetos que possam vender o meu trabalho. Mas também são estes os trabalhos com que mais me identifico, e a partir dos quais queria inventar outros trabalhos. A verdade é que só consigo fazer estas coisas porque estou numa posição de privilégio, porque tenho um contrato de trabalho com uma empresa de construção como designer, e porque tenho outros clientes enquanto freelancer. Portanto, e por enquanto, isto é uma escolha que posso ter, e é uma que decido fazer.

9/11

Como veem, são mais as questões que se levantam, são mais
os problemas que deixo na mesa para pensarmos — especialmente
no que rodeia esta questão de ser ativista. Identifiquei-me com este termo nos últimos tempos, mas sei que isto se sustenta no privilégio que vos descrevi. Também sei que nesta mesma vantagem, não tenho como não o fazer. Não tenho como ignorar o que me rodeia e, entre um direito e um dever, capacito-me e identifico-me.

Escrevo-vos de Berlim, onde fico até ao final do ano, e onde estou a trabalhar num mapa de histórias e de vozes não eurocêntricas pela cidade, com uma bolsa para residência artística. Olho para isto tudo como um luxo — e só não o é, porque me sinto igual.

10/11

Continuo sem saber se isto ainda é Design, se isto já é Design, mas, ao mesmo tempo, acredito que este é o caminho por onde preciso de ir agora. E que o precisar sempre foi o mais útil para o meu fazer. Diluídos, como a própria identidade o é, como o Design pode acontecer. E vejo-me, agora, numa relação à distância com o Porto. O Porto que, nos últimos anos, tem visto umas novas luzes se acenderem, entre tantas outras que se apagaram. Assisto a esta nova história, um pouco mais à distância agora, onde se reconfiguram ou se encertam novos espaços, entre alguma expectativa e muita desconfiança. Vejo a cidade cristalizar circuitos que já eram os do privilégio, e a única possibilidade que (me) faz sentido é ocuparmos estes centros. As pessoas que já cá estão e as que estão para chegar, em solidariedade e em comunidade, abrindo caminho a todas as que têm de ter ali um lugar. Ou, como vocês duas, Joana e Mariana, tão bem o puseram na primeira destas Cartas: “Falta sempre quem não está”.

Obrigada por me lerem,
Rita

11/11