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Queridas Cartas

Rita Ferreira

Queridas Cartas

Rita Ferreira 1/3

Berlim, 28 de fevereiro de 2023

Queridas Joana e Mariana,

Estava a ensaiar um “Queridas Cartas”, mas o vosso gesto comigo foi tão pessoal, que só é justo trazer os vossos nomes para a frente. Os nomes de quem, como se costuma dizer, está atrás. Esta coisa de estar atrás, já agora, tem funcionado sempre muito bem comigo: camufla-me o nervosismo, ou mesmo o pânico, que sinto na exposição individual.

Mas a questão que me levantaram foi valente: Como é que a minha identidade se encontra com o meu trabalho? Então, entre estar atrás ou à frente, numa margem ou na outra, mais grossa ou até itálica, imagino-me a diluir estas coisas todas, para vos dar de volta o que me trouxe aqui.

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Cheguei ao Design aos trambolhões. E cheguei ao Design porque vim parar ao Porto: o Porto era o que mais me interessava, era a cidade onde queria viver, era onde parava umas horas para transbordos entre comboio e camioneta, de Guimarães para as Caldas da Rainha, e vice-versa. Também foi a cidade da juventude do meu pai, mas isso é outra história. Antes disto tudo, o trabalho era uma ideia demasiado abstrata em mim, e era muito longínqua também. Queria fazer Cinema, nem sei o quê, e, terminada a licenciatura vim a correr atrás do Porto. Claro que não encontrei um trabalho, muito menos sabia como isso funcionava. Surpresa! Entre um e outro biscate a rasar no que eram as minhas ferramentas, vi-me a fazer cadernos em casa, a namorar livros na Mundo Fantasma ou cartazes na rua, e a meter os pés nas últimas vidas de cinemas como o Nun’Álvares. O que importava era o Porto: andar a pé pela cidade e descobrir um novo corta-mato qualquer.

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